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Narrativa e E-Prime

Um post gigante sobre algo fundamental

Robert Anton Wilson, ou RAW, como é conhecido pelos fãs, nasceu em 1932 e faleceu em 2007.

Ele era escritor, filósofo, psicólogo e pesquisador. Preferia ser visto como um futurista, escritor e comediante. Ex-editor da revista Playboy, ministrava seminários sobre budismo, dentre outras coisas.

Ele próprio se identificava como um “agnóstico modelo” – aquele que nunca olha para o Universo com 100% de crença ou negação.

Infelizmente, só travei contato com um de seus livros em 2005. Não sei se porque o Brasil não parece ter interesse por assuntos como os que ele escrevia, ou se o meu próprio foco não estava voltado para isso.

O que sei é que Psicologia Quântica – como o software cerebral programa você e o mundo, publicado pela Editora Madras, me abriu um leque de possibilidades investigativas, não a respeito de psicologia e muito menos de física quântica, mas, exatamente, sobre linguística.

Num dos capítulos iniciais, RAW fala sobre o E-Prime, conceito até então desconhecido por mim…

O termo tem história. O livro Science and Sanity, publicado em 1933 e escrito por Alfred Korzybsky, propôs que fosse eliminado da língua inglesa o uso do “é”, por ele estabelecer uma relação de identidade. Em 1949, o Dr. David Bourland Jr. propôs a eliminação de todas as formas conjugadas do verbo “ser”, o que ele denominou de E- Prime, ou English-Prime.

Quem primeiro se apropriou de tão ousada idéia foi a comunidade científica. Os resultados dessa modificação estrutural na forma de expressão escrita foram pesquisados pelo próprio Dr. Bourland, que acabou por descobrir que muitos dos relatórios que haviam sido produzidos nos anos anteriores ao uso do E-Prime, passaram rapidamente a fazer sentido, tornando-se aceitáveis aos cientistas.

Os físicos já escrevem em E-prime, sobretudo por influência do Operacionalismo – a filosofia que dita a definição das coisas por meio do próprio conjunto de operações realizadas.

Quanto ao resto – e nos incluímos como escritores no “resto”, não pejorativa, mas quantitativamente – nada parece ter sido modificado.

Como brasileiros, temos mais um problema a enfrentar: nossa estrutura de idioma não apenas fornece a possibilidade do verbo “ser”, como também a do “estar”, o que para os de língua inglesa resume-se ao “to be”, com as duas funções.

A proposta de reflexão não é sobre uma mudança radical quanto à forma, mas sobretudo, quanto à estrutura. Afirmações ou negações absolutas, relacionadas ao “ser” e ao “estar” não apenas confundem quem as faz, mas cerceiam a visão de mundo do leitor.

RAW nos lembra de uma antiga premissa vinda dos desenvolvedores da informática que diz que:

“(…) o software pode mudar radicalmente o desempenho do hardware e, às vezes, de maneira assustadora!”. “

Lixo dentro, lixo fora” era a frase corrente na Microsoft do iniciante e desconhecido Bill Gates.

“Uma vez que o cérebro não recebe dados brutos, mas edita os dados à medida que os recebe, precisamos compreender o software empregado por ele. A questão do uso do E- Prime fundamenta-se na simples proposição de que o uso do “é” ajusta o cérebro a uma estrutura aristotélica medieval, impossibilitando a compreensão dos problemas e oportunidades modernas. Em síntese, um clássico caso de lixo dentro, lixo fora. A remoção do “é”, aliada ao fato de escrever/pensar em linguagem operacional/existencial, por outro lado, nos coloca em um universo moderno, em que é possível ter êxito ao lidar com tais questões.”

Se você está agora, tão confuso quanto eu fiquei ao me deparar com essa proposta, precisa avaliar algumas estruturas que comparam o uso do registro padrão e do P-Prime (já modificando para o Português):

Português padrão

O fóton é uma onda.

P-Prime

O fóton se comporta como uma onda quando comprimido por certos instrumentos.

Português padrão

O fóton é uma partícula.

P-Prime

O fóton parece uma partícula quando comprimido por certos instrumentos.

Português padrão

Carlos é triste e ranzinza.

P-Prime

Carlos parece triste e ranzinza no escritório.

Português padrão

Maria é alegre.

P-Prime

Maria parece alegre nessas férias na praia.

Português padrão

O carro envolvido no acidente era um Corsa.

P-Prime

Se não me falha a memória, lembro-me de ter visto um corsa fugindo depois do acidente.

Português padrão

Rock é melhor do que Sertanejo.

P-Prime

Prefiro ouvir rock à música sertaneja.

Português padrão

O gramado é verde.

P-Prime

A maioria dos olhos humanos registra o gramado como verde.

As duas primeiras proposições traduzidas para o P-Prime solucionaram uma polêmica que se arrastava desde 1920, porque em alguns experimentos os fótons podiam ser descritos como ondas, em outros, como partículas! Alguns cientistas chegaram a afirmar que o fenômeno deveria se chamar “ondículas”, o que de modo algum, resolveria a questão. Quando alguns teóricos sugeriram que “O Universo não é racional”, não deixavam de ter razão… Pela lógica Aristotélica, obviamente.

Mas, se examinarmos as frases iniciais e a tradução para o P-Prime, podemos perceber que não há contradição, paradoxo ou irracionalidade no Universo. Trata-se apenas de condições determinadas de experimentação e do ponto de observação.

Uma certa planta nos faz “dormir”, como se dentro dela houvesse um fantasma ou essência que provoca sono, ou a estrutura de moléculas da planta, mais as estruturas de receptores do nosso cérebro provoca uma reação parecida com sono? (E parecida é fundamental na escrita P-Prime, pois muitos que ingerem plantas com a qualidade de provocar reações neuroquímicas podem apresentar sintomas que não são sono, mas tontura, torpor, desorientação… Então, nem sempre é sono e muito menos para todos!)

“Em palavras mais simples, o universo aristotélico supõe uma reunião de ‘coisas’ com ‘essências’ ou ‘fantasmas’ internos, enquanto o universo científico moderno – ou existencial – supõe uma rede de relações estruturais.”

Assim, relacionar a produção de textos científicos ao P-Prime parece a melhor coisa a fazer.

Peças judiciais, como, depoimentos de testemunhas, perícias técnicas ou relatos, também deveriam ser escritas em P-Prime.

Muito provavelmente, matérias jornalísticas com a função de informar deveriam encaixar-se no P-Prime…

E, o que isso tem a ver com os escritores que produzem ficção?

Bem, lidamos com informações. Nosso mundo não está distanciado do que realmente existe e mesmo que estejamos criando um peça da mais pura ficção, estamos baseados em conceitos que são reais ou que representam imagens que, agrupadas de determinada forma, parecerão ao leitor com “uma nave alienígena de um prata azulado”.

Contudo, essas imagens só fazem sentido quando devidamente colocadas numa estrutura de espaço-tempo. Dizer que alguém tem o cabelo comprido, só importa naquele momento, porque tanto é verdade que esse alguém já teve o cabelo curto, antes de que ele crescesse, quanto é certo que pode vir a ter o cabelo curto por querer diminuí- lo no dia seguinte! Um policial que ouve uma informação do tipo: “O homem que pegou minha bolsa estava de boné” sabe exatamente que procurará, dentre outras coisas, alguém de boné, mas não está atrás de um boné e sim, de um homem que pegou uma bolsa.

Além disso, há alguém por trás do nosso texto que fala e é ouvido, muito mais do que qualquer personagem. Ele se chama narrador.

A voz por trás do texto; o ser que conta a história; o observador onisciente. Tanto faz como será encarado. Ele existe e se você opta por usar uma narração em terceira pessoa, a coisa pode se complicar mais ainda.

Perceba que há, por parte do narrador, um poder de situar todas as premissas que serão utilizadas pelo leitor. Se é ele quem faz as descrições, as caracterizações de ambientes, a apresentação das personagens, é dele também a responsabilidade de passar os conceitos. Como na filosofia, comece com uma premissa errada e sua conclusão não estará certa.

Usando o exemplo de Bill Gates, “Lixo dentro, lixo fora”, mais uma vez.

Você pode investir seu precioso tempo construindo personagens completamente coerentes, bem situadas, até mesmo politicamente corretas. Mas e quanto ao narrador? Seu leitor tem espaço suficiente, a partir dos dados fornecidos, para montar as peças do quebra-cabeça de modo a “rodar um software” que não danifique o seu próprio “hardware”, ou seja, que não comprometa o juízo de valor que fará de cada personagem?

Suponha que o narrador esteja introduzindo uma personagem. O nome dele é João. A narração é a seguinte:

João era o vizinho judeu de Mara.

O simples uso da palavra “judeu” pode assumir cinco diferentes significados.

“Segundo a lei rabínica, significa que sua mãe é judia. Isso não diz nada sobre os interesses políticos ou religiosos dele, e menos ainda sobre suas preferências artísticas, sua vida sexual, seus esportes favoritos, etc.”

Na Alemanha nazista ou em alguns territórios dos Estados Unidos, hoje, significa que João teve um ancestral, em algum lugar, possível de ser classificado como judeu, em uma dessas cinco contraditórias definições. Uma vez mais, isso nada nos diz sobre como ele se comportará.

Em alguns círculos, significa que ele pratica a religião judaica. Por fim, soubemos algo sobre João. Ele com certeza comparece ao Templo regularmente… ou com bastante regularidade. (Mas ainda não sabemos se ele segue estritamente as leis kosher

João é judeu também pode significar que, embora rejeite a religião judaica, João se identifica com a “comunidade judaica” e (caso tenha se tornado famoso) poderia falar como judeu em algum comício político. (Ainda não sabemos, por exemplo, se ele apóia ou critica as políticas israelenses atuais.)

Mais uma possibilidade para João: ele vive em uma sociedade em que, por qualquer das razões anteriores ou por algum erro de percurso quanto aos julgamentos aceitos naquela sociedade, as pessoas o considerem como judeu e forçosamente ele tem que reconhecer essa “qualidade judaica” como algo – mesmo que seja um fantasma- que as pessoas vêem quando pensam que o vêem verdadeiramente.” No Brasil, alguém que tem o hábito de salvaguardar seu dinheiro sem emprestá-lo pode ser chamado de judeu.

Ao apresentar sua personagem João, você imaginou, por um instante, que tudo ficaria claro para o leitor de uma só vez, usando o termo judeu. Não me parece mais, tão simples assim…

Você pode pensar que o exemplo fornecido foi o fator de complicação. Tentemos mais uma vez:

“Carlos é entregador de pizza.”

É mesmo? Ainda é? Sempre foi?

Se escrevêssemos em P-Prime a mesma frase, seria algo parecido com:

“Carlos estava, atualmente, trabalhando como entregador de pizza.”, o que melhora em muito as possibilidades do leitor, porque ele agora sabe que isso está situado num tempo – nesse momento, Carlos trabalha como – e que isso não o define como um ser, mas o situa no tempo atual e em parte de um ambiente – um dos cenários na vida de Carlos é a pizzaria na qual ele trabalha.

Sintetizando o conceito de P-Prime e inserindo-o também na questão da narrativa, os registros poderiam ser de mais utilidade ao leitor, caso representassem:

1. A descrição de uma operação/situação/personagem colocada numa estrutura de espaço-tempo;

2. Um conceito que, dito pelo narrador, refletisse a idéia menos passível de dualidade;

3. Um conceito que, dito por uma personagem, refletisse apenas o seu ponto- de-vista

4. Uma operação-situação/descrição que levasse em conta as redes de estrutura estabelecidas entre o observador e o objeto, sendo que, no caso de uma narrativa em terceira pessoa, o olhar do narrador deve ser tão universal quanto for possível, ou o leitor, que enxerga a partir dos olhos do narrador, ficará preso numa armadilha.

Sinceramente, eu não acredito que um dia possamos nos encontrar numa situação de “ler” o mundo através do P-Prime. Para isso, teríamos que desistir da mídia, por exemplo, e esquecer que:

• … é impossível comer um só

• Kibon: é gostoso e faz bem

• Eu sou você amanhã

• É fresquinho porque vende mais. Vende mais porque é fresquinho

• Abra a boca é Royal.

• Coca-cola é isso aí.

Também precisaríamos rever todos os livros didáticos que esquecem de situar os conceitos no espaço-tempo.

Precisaríamos garantir que estamos lendo/vendo uma matéria de jornal baseada na opinião do repórter e do delegado e da vítima… e que não reflete a política editorial da empresa jornalística.

Finalmente, deveríamos encarar um mundo com menos “fantasmas” e menos “essências”. “O mercado está em crise” é quase que uma coisa do além, analisando a frase pela ótica do P-Prime! “A Bahia é uma festa”, nem se fale; me parece até metafísica pura que uma cidade com um índice de pobreza e necessidade social tão grande seja caracterizada pelos brasileiros como uma festa que não se acaba.

Quanto a nós, escritores, tentemos reter o conceito. Pelo menos na parte que nos cabe – que é a de mostrar um mundo, alguns seres que a ele pertencem e situações que criamos, baseadas no mundo real – façamos o melhor possível, incluindo neste melhor, a entrega de possibilidades ao leitor evitando definições absolutas e aristotélicas o quanto pudermos e falando mansamente, com muita calma, que se existem fantasmas são os dele, não os nossos.

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Referências

O artigo foi baseado no capítulo E e E-Prime, do livro Psicologia Quântica: como o software cerebral programa você e seu mundo, de autoria de Robert Anton Wilson, publicado no Brasil pela Editora Madras.

Em minhas pesquisas achei, no Brasil, apenas um trabalho científico sobre o assunto, de autoria de Maria Marta Furlanetto. A seguir, o resumo de sua proposta:

Autor: FURLANETTO, Maria Marta. Titulo: P-Prime e produção linguística: percepção e preconceito. Publicação: Linguagem em Discurso, Tubarão, v. 2, n. 1, p. 37-59 jul./ dez. 2001.

Resumo: Neste trabalho discute-se a possibilidade de uma linguagem que se desloque do esquema essencialista de Aristóteles, associando-se isto à idéia mais ampla de proporcionar (também na perspectiva pedagógica) um melhor desempenho na escritura de documentos formais. Aposta-se na possibilidade de que isso represente um modo de pensar mais adequado, mais científico, representando um ganho de percepção e de consciência de mundo, e finalmente de reconhecimento das redes que compõem a vida humana em seu processo de conhecimento e de reconhecimento da alteridade. Trata-se de buscar uma linguagem que corresponda a uma flexão do sujeito para a própria expressão, para descobrir de que ela fala, e como fala em nós (pré-conceitos).

1 Comment
  1. Reply
    Central do Autor outubro 11, 2016 at 3:38 am

    Incrível este artigo! Parabéns!

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